Da persuasão à mobilização: o que está em jogo nas eleições de 2026
Segundo a Quaest, 55% dos entrevistados se sentem frustrados, pois reconhecem que ganham mais, mas a vida não melhorou devido à explosão do custo de vida.
Por: Yuri Almeida*
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Foto: Yuri Almeida | Arquivo pessoal
Há uma grande dissonância entre os indicadores econômicos oficiais (PIB em crescimento, inflação controlada e desemprego baixo) e a percepção da maioria dos brasileiros, onde 43% afirmam que a economia piorou e 61% dizem ter menos poder de compra. A chave para essa contradição é o conceito de affordability (relação entre renda e custo de vida). Segundo a Quaest, 55% dos entrevistados se sentem frustrados, pois reconhecem que ganham mais, mas a vida não melhorou devido à explosão do custo de vida. Este paradoxo impede que os bons números oficiais se traduzam em dividendos políticos para a reeleição do presidente Lula, refletindo uma tendência global de enfraquecimento da correlação entre sentimento econômico e aprovação presidencial. Gratidão não se traduz em votos: Apesar de o Governo Federal apresentar um pacote robusto de "entregas" e políticas sociais, como o Bolsa Família, que historicamente beneficiaria os incumbentes, os dados mostram que a aprovação do governo não registra saldo positivo há mais de um ano. Isso ocorre porque a “dinâmica da gratidão automática” parece ter se esgotado. Para cerca de 70% dos brasileiros, os programas sociais deixaram de ser vistos como favores e passaram a ser percebidos como direitos consolidados, uma vez que a rede de proteção foi mantida e ampliada por governos anteriores (Jair Bolsonaro e o Congresso). O desafio da comunicação política é reconstruir a narrativa, mostrando que as escolhas políticas concretas (votar em A ou B) levam a desfechos diferentes na vida das pessoas. Um país que se descobriu mais à direita: Com a perda de força explicativa da economia e das entregas de governo, os valores ganharam espaço na explicação do voto. O Brasil passou por um deslocamento para posições mais conservadoras e tradicionais. A autodeclaração de direita aumentou de 28% para 36% desde 2007, e a de centro subiu de 28% para 37%. A esquerda, por sua vez, recuou a 23%. A maior novidade é que apenas 4% permanecem indefinidos, em comparação com 22% em 2007. Essa migração se deu porque o discurso da direita conseguiu organizar valores conservadores que antes não se reconheciam em nenhum projeto político. Curiosamente, a juventude, embora mais conservadora em alguns temas, tende a buscar o centro e rejeitar a polarização, abrindo uma oportunidade para discursos menos binários em 2026. Lula, direita, bolsonarismo e a calcificação do eleitorado: Os valores influenciam a percepção das lideranças, ilustrando a confusão do eleitorado: 45% veem Lula como um radical de esquerda. O eleitorado está praticamente calcificado e dividido em dois grandes blocos de 35% cada: um alinhado a Lula (lulismo, maior que a esquerda) e outro alinhado à direita (maior que o bolsonarismo). A calcificação é o processo, descrito por Nunes e Traumann (Biografia do Abismo), em que o eleitor se agarra ao seu campo político por medo da vitória do "outro lado", transformando grupos de apoio em "fã-clubes" menos permeáveis à persuasão. Essa dinâmica é alimentada por uma polarização imaginada, onde os eleitores superestimam o peso dos extremos (pensam que há 35% de lulistas e 32% de bolsonaristas, enquanto os números reais são 20% e 13%, respectivamente), o que reforça o clima de "guerra cultural". A batalha de 2026: mais mobilizar do que convencer: A eleição de 2026 tende a ser uma disputa pautada pelo desejo de mudança. As simulações da Quaest indicam um quadro competitivo, com Lula operando próximo ao seu piso e com dificuldades para crescer entre os independentes (cerca de 25%). Flávio Bolsonaro replica o movimento, consolidando seu campo e crescendo entre os independentes (18%). No entanto, o centro é enganoso: embora 29% dos eleitores se posicionem no meio, uma grande parte é apática e desinteressada da vida pública. Diante de um eleitorado calcificado e um centro reduzido e desinteressado, a lógica da campanha se desloca da persuasão (mudar a opinião) para a mobilização (levar o eleitor a votar). Com abstenções crescentes, a margem de decisão se torna estreita, e o que decidirá a eleição é a capacidade de transformar simpatizantes em militantes e eleitores desanimados em participantes ativos. Desafios e oportunidades para 2026: Fórmulas simples serão insuficientes em 2026. Governos não podem mais confiar apenas em números econômicos positivos, pois o eleitor prioriza a capacidade real de pagar o custo de vida. Da mesma forma, programas sociais não garantem mais votos automaticamente. Oportunidades surgem no espaço dos valores e da narrativa. Partidos e candidatos que souberem equilibrar o entendimento do país mais conservador com a demanda por moderação da juventude terão vantagem. A disputa será travada sobre um centro pequeno e de baixa energia cívica, e a prioridade das campanhas será mobilizar afetos e contar uma história convincente sobre como decisões políticas produzem ou não uma vida melhor. A máxima que resume 2026 é a percepção de justiça na vida concreta – e a capacidade de mobilizar afetos em torno dela – que decidirá quem governa o país. *Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em campanhas eleitorais.
ACM Neto confirma negociação com João Santana, mas diz que não há contrato
Pré-candidato ao governo da Bahia afirma que tratativas estão em curso e que eventual acordo será anunciado após formalização.
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Foto: Reprodução
O pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto (União Brasil), confirmou que está em conversas com o marqueteiro João Santana para integrar sua campanha nas eleições de outubro. Segundo ele, ainda não há contrato assinado. A declaração foi feita na noite de segunda-feira (2), durante entrevista a podcast. “Não, nós não temos contrato. É verdade que nós estamos conversando”, afirmou.Ex-prefeito de Salvador, Neto elogiou o histórico do publicitário, que atuou em campanhas presidenciais vitoriosas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Ele disse que há interesse mútuo, mas que o acordo depende de ajustes finais, envolvendo conteúdo da negociação e forma de contratação. “Só posso anunciar alguma coisa depois que estiver realmente fechado”, declarou.A possível consolidação da parceria tem gerado apreensão entre integrantes do PT na Bahia, segundo bastidores políticos. Neto afirmou ainda que não negará as tratativas e que as conversas já vinham ocorrendo antes de serem divulgadas pela imprensa.
Trio Wagner, Rui e Jerônimo vence trio de ACM Neto nas redes sociais durante o Carnaval
O Carnaval brasileiro, como nos lembra Roberto DaMatta, não é apenas festa: é um ritual de inversão que expõe o “fundo da sociedade”, vira a roupa social do avesso
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Foto: Yuri Almeida | Arquivo pessoal
O Carnaval brasileiro, como nos lembra Roberto DaMatta, não é apenas festa: é um ritual de inversão que expõe o “fundo da sociedade”, vira a roupa social do avesso e dramatiza, em poucos dias, hierarquias, conflitos e sonhos de igualdade que marcam o Brasil ao longo do ano. À luz dessa chave antropológica, os dados do estudo do LabCaos sobre o desempenho do Trio Puro G (Wagner, Rui e Jerônimo), do trio de ACM Neto (Neto, Roma e Coronel) e do engajamento do presidente Lula, no Instagram, durante o Carnaval de 2026 deixam de ser mera estatística de campanha e se tornam um capítulo a mais da disputa por sentidos e pertencimentos na democracia brasileira. DaMatta descreve o Carnaval como um “ritual de inversão”: em uma sociedade hierárquica, autoritária e patronal, por alguns dias “se pode fazer tudo”, como se a ordem fosse virada “de cabeça para baixo” e o “fundo do poço viesse para cima”. Esse movimento não é puro descontrole, mas um drama social estruturado em que a rua deixa de ser apenas espaço de estranhos e se torna uma espécie de casa ampliada, onde desconhecidos se tratam com intimidade e as distâncias de classe, raça e poder são momentaneamente relativizadas.
As mulheres encontraram o caminho para vencer a direita nas redes
Análise exclusiva do LabCaos revela: enquanto a direita aposta no volume, as deputadas de esquerda dominam a taxa de engajamento e ensinam o caminho das pedras para o campo progressista.
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Foto: Arquivo Pessoal | Yuri Almeida
Há anos, analistas políticos e marqueteiros repetem o mesmo mantra: "a direita domina as redes sociais, e a esquerda fala para as bolhas". Durante muito tempo, os dados corroboraram essa tese. No entanto, estudo realizado pelo LabCaos sobre a performance das deputadas federais em 2025 revela uma mudança tectônica no cenário digital brasileiro. Veja o estudo completo clicando aqui. Os dados são evidentes: se existe uma saída para a esquerda vencer o debate na ambiência digital, esse caminho está sendo pavimentado pelas mulheres. O estudo analisou o engajamento das 89 deputadas federais no Instagram entre janeiro e dezembro de 2025 e os números contam uma história que muitos insistem em ignorar: a hegemonia da direita está sendo desafiada pela eficiência das parlamentares progressistas. A primeira lição que os dados nos trazem é a diferença entre fazer barulho e gerar conexão. Se olharmos apenas para o volume bruto de interações, a direita ainda mostra força, com nomes como Bia Kicis acumulando quase 69 milhões de interações. É o famoso "canhão" de audiência. Porém, o jogo muda quando refinamos o olhar para a taxa de engajamento — a métrica que define quem realmente mobiliza sua base proporcionalmente. Das 10 deputadas com melhor taxa de engajamento, 7 são de esquerda. A líder absoluta, Jack Rocha (PT), atingiu 26,87% na taxa de engajamento. Para se ter uma ideia do abismo, isso é quase o triplo da taxa de deputadas bolsonaristas tradicionais como Bia Kicis, que tem 8,96%. Isso sinaliza que o campo progressista, através de suas mulheres, parou de panfletar digitalmente e começou a conversar. O "Fenômeno Erika Hilton" e a narrativa de combate: Se Jack Rocha domina na taxa de engajamento, Erika Hilton (PSOL) nos dá uma aula de expansão de base e mobilização. Ela foi a deputada que mais conquistou novos seguidores no período, somando quase 900 mil novos perfis. O segredo? Uma estratégia de comunicação agressiva e didática. A análise dos posts mostra que ela domina a técnica de rotulagem. Ao apelidar projetos adversários com nomes de alto impacto emocional — como "PEC da Bandidagem" — ela fura a bolha e pauta o debate. Mais do que isso, ela cria um senso de causalidade: atribui a queda de projetos da oposição à capacidade de "mobilizar as redes". O estudo do LabCaos também desmonta a ideia de que a esquerda não sabe lidar com a polarização. As mulheres encontraram o tom certo. As menções a Bolsonaro são massivamente negativas, focando na sua condenação pelo STF e críticas à obstrução do Congresso. Já Lula é trabalhado de forma majoritariamente positiva, associado a pautas pragmáticas como a isenção do Imposto de Renda e proteção social. Enquanto a direita aposta no medo, as mulheres de esquerda estão conseguindo engajar combinando o combate ao bolsonarismo com a defesa de direitos sociais concretos. As parlamentares da esquerda encontraram um caminho para pautar os debates e defender o Governo Lula com uma eficiência que falta a muitos homens da base governista. Elas entenderam que rede social exige emoção, combate e simplificação. O campo progressista, muitas vezes preso a discursos institucionais, deveria olhar menos para teorias antigas e aprender com a prática dessas deputadas. A esquerda pode vencer a direita nas redes? Pode. Mas os dados mostram que a liderança desse processo é feminina. Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em campanhas eleitorais.
Desalinhamento democrático: Congresso é visto como distante, pouco transparente e indiferente às prioridades sociais
Um Congresso avaliado como problema — não como solução.
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Foto: Yuri Almeida | Arquivo pessoal
A 166ª rodada da Pesquisa CNT de Opinião (novembro/2025) revela um paradoxo que define a crise de representação brasileira: enquanto 56,3% dos eleitores declaram intenção de votar em novos nomes para o Congresso em 2026, quase metade da população (42,9%) sequer lembra em quem votou em 2022. É a combinação explosiva entre desejo de mudança e memória curta — um fenômeno que garante sobrevida aos atuais parlamentares, apesar da rejeição generalizada. Um Congresso avaliado como problema — não como solução. A imagem do Congresso Nacional permanece em terreno crítico. A maioria dos entrevistados classifica o desempenho como Regular ou Negativo, consolidando um desgaste estrutural. Avaliação Negativa (Ruim + Péssima): 37,0%. Avaliação Positiva: apenas 17,0%. Mas o dado mais alarmante não está nas notas, e sim na percepção de impacto: 40,8% afirmam que o Congresso atrapalha o país, enquanto 32,4% enxergam sua atuação como indiferente — ou seja, irrelevante. A crise não é apenas de imagem, é de utilidade pública. Descolamento total das prioridades do povo: A pesquisa aponta um diagnóstico cristalino: o eleitor não sabe para quem o Congresso trabalha, mas tem certeza de que não é para ele. Segundo o estudo: 49,8% acreditam que o Legislativo defende Políticos/Partidos; 32,1% — Empresários e setores organizados; Apenas 16,4% — o povo em geral. E, curiosamente, o Congresso é visto como defensor do Governo Federal (19,6%) mais do que da sociedade. O retrato é de um Parlamento fechado sobre si mesmo. Democracia sem escuta e sem transparência. Dois indicadores aprofundam o distanciamento: A opinião pública influencia apenas 9,0% das decisões do Congresso: A atuação é percebida como Nada Transparente por 38,6% dos entrevistados; só 10,5% a consideram transparente. Em uma democracia representativa, quando o representante não escuta e não explica, a confiança colapsa — e foi exatamente isso que aconteceu.O país quer mudar — mas não sabe quem deve sair. O clima de renovação é evidente: 56,3% querem novos nomes para deputado e senador; No entanto, a renovação eleitoral esbarra em um fator decisivo: a ausência de memória e acompanhamento do mandato. 42,9% não lembram em quem votaram; 15,1% sequer votou. Apenas 15,1% acompanha o parlamentar em quem votou. Sem fiscalização, não há punição — e sem memória, não há renovação plena. É a amnésia eleitoral que vira capital político. Como o eleitor escolhe seu voto? Política ainda é feita no território. Os critérios de escolha revelam menos ideologia e mais pragmatismo: Histórico de trabalho e entregas na região: 39,4%; Integridade/ética: 19,9%; Voto ideológico: 10,4%; Defesa de causas específicas: 5,8%. Ou seja: quem tem mandato, obra entregue e comunicação ativa larga na frente — especialmente em um cenário em que o eleitor esquece, mas reconhece quando vê. Estratos que agravam o desgaste: O estudo também mostra que a insatisfação é mais intensa entre: homens, população mais velha, pessoas com maior renda e escolaridade. Regionalmente, o Sul lidera a avaliação negativa, enquanto o Nordeste apresenta índices mais positivos — reforçando diferenças políticas já conhecidas. O que esta pesquisa diz sobre 2026: O país vive um desencanto profundo com o Congresso — porém não necessariamente com seus integrantes. O eleitor quer mudar “o sistema”, mas não lembra quem o compõe. A lição estratégica é direta: Mandatos que comunicam sobrevivem; A renovação será parcial, não estrutural. A disputa será ganha pelo trabalho visível, não pelo discurso abstrato. Em síntese: o Brasil quer virar a página, mas ainda não decidiu quem deve sair do livro. A crise de representação não nasce apenas da política — nasce também da memória curta do eleitorado e da ausência de vínculo entre voto e cobrança. Enquanto o Congresso permanecer distante, opaco e autodefensivo, a democracia seguirá mancando entre rejeição e repetição. Yuri Almeida é professor, estrategista político e especialista em marketing eleitoral.
Quem vence as eleições na Bahia: Jerônimo ou ACM Neto?
O embate repete a polarização entre o petismo e o carlismo — tradições políticas que, há mais de duas décadas, estruturam o campo eleitoral baiano.
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A política baiana caminha para uma reedição da disputa de 2022. O atual governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (UB) despontam como principais nomes na corrida pelo Governo da Bahia em 2026.
O embate repete a polarização entre o petismo e o carlismo — tradições políticas que, há mais de duas décadas, estruturam o campo eleitoral baiano.
Desde 2006, o Partido dos Trabalhadores venceu cinco das últimas seis eleições estaduais, consolidando o domínio político do grupo liderado por Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. Quatro dessas vitórias ocorreram ainda no primeiro turno, com destaque para Rui Costa, eleito em 2018 como o governador mais votado da história do estado.
Esse histórico confere ao PT uma estrutura política capilarizada, sustentada em redes territoriais, programas sociais e apoio de prefeitos, deputados e lideranças locais. A continuidade dessa hegemonia coloca a Bahia como um dos principais redutos petistas do país.
Na eleição de 2022, Jerônimo Rodrigues venceu ACM Neto no segundo turno, com 52,79% dos votos válidos contra 47,21%. O resultado contrariou boa parte das pesquisas — apenas a Atlas/Intel conseguiu prever corretamente a virada petista. Historicamente, os institutos de pesquisa têm dificuldade de capturar o comportamento do eleitorado baiano nas últimas semanas antes da votação.
Segundo levantamento da Quaest (agosto de 2025), ACM Neto lidera as intenções de voto para 2026. A vantagem, contudo, não é consolidada: o ex-prefeito mantém forte presença em Salvador e nas regiões metropolitanas, enquanto Jerônimo continua com melhor desempenho no interior.
A análise de tendências digitais, elaborada pela agência LabCaos, mostra um quadro mais equilibrado. Nos últimos 90 dias, o volume de buscas por Jerônimo Rodrigues no Google superou o de ACM Neto, indicando maior interesse público em torno do governador.
Redes sociais: engajamento e percepção pública
Os dados de 2025 reforçam uma diferença qualitativa na atuação digital.
* Jerônimo Rodrigues: mais de 4,9 milhões de interações, 108 mil novos seguidores e 1,6 mil postagens.
* ACM Neto: cerca de 4,5 milhões de interações, 129 mil novos seguidores, mas apenas 265 postagens.
Mesmo com um número menor de seguidores (744 mil contra 1,2 milhão de Neto), Jerônimo apresenta taxa de engajamento quase duas vezes maior: 2,5% contra 1,3%. Em termos comunicacionais, isso sugere uma comunidade digital mais ativa e orgânica, característica central para campanhas com forte presença territorial e emocional.
Nos últimos 30 dias analisados, Jerônimo recebeu 1.543 menções, contra 644 de ACM Neto. Além do volume maior, o governador registra índice mais elevado de sentimento positivo, o que indica boa percepção entre internautas — um indicador relevante para avaliar a reputação política e o potencial de adesão eleitoral.
Projeções eleitorais e tendência histórica
A disputa entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto em 2026 tende a ser, mais uma vez, um embate entre estrutura política consolidada e força de imagem pessoal. Enquanto o governador busca consolidar seu legado e ampliar o eleitorado no eixo urbano, ACM Neto tenta reconstruir seu espaço simbólico fora de Salvador.
Embora nenhum modelo estatístico seja capaz de prever com exatidão o comportamento eleitoral, a projeção feita a partir da média de variação histórica do PT na Bahia (2002–2022) aponta que o partido pode alcançar até 68,75% dos votos válidos em 2026. Esse cálculo considera a tendência de crescimento linear das votações petistas e a consolidação de Jerônimo como figura de continuidade das gestões do PT.
Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em marketing eleitoral.
Romeu Zema e o dilema da viabilidade liberal em 2026
Com aprovação de 63,6% de seu governo, segundo o Paraná Pesquisas (08/10), Zema figura entre os governadores mais bem avaliados do país.
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A pré-candidatura de Romeu Zema (Novo) à Presidência da República marca um novo capítulo na tentativa de consolidação de um projeto liberal no Brasil. O governador de Minas Gerais, que despontou como outsider em 2018 e consolidou sua reeleição em 2022 com mais de 56% dos votos, enfrenta agora o desafio de transformar popularidade regional em competitividade nacional.
Com aprovação de 63,6% de seu governo, segundo o Paraná Pesquisas (08/10), Zema figura entre os governadores mais bem avaliados do país. No entanto, seu capital político permanece concentrado em Minas — o segundo maior colégio eleitoral do Brasil e considerado o “espelho do país”. Desde 1989, quem vence em Minas, vence o Brasil (com exceção de 2014). Ainda assim, Zema encontra dificuldades para romper as barreiras estaduais e nacionalizar sua imagem.
Pesquisas recentes da Quaest (09/10) indicam que, num cenário sem Bolsonaro, Zema aparece com apenas 4% das intenções de voto, atrás de Tarcísio de Freitas (18%) e Ciro Gomes (12%). Em confronto direto com o presidente Lula, perde com margem de 47% a 32%. A estagnação reflete um dilema estrutural: embora possua um discurso técnico e moderado, Zema ainda é visto pelo eleitorado bolsonarista como “liberal demais” e “pouco combativo”.
No campo digital, o governador demonstra força e consistência, mas não hegemonia. Nos últimos dois meses, somou 122 publicações no Instagram, alcançando 2,9 milhões de interações e 46 mil novos seguidores — números expressivos, porém inferiores aos de Ratinho Jr. e Tarcísio de Freitas, que lideram tanto em crescimento quanto em taxa de engajamento. As postagens com melhor desempenho de Zema são aquelas que tratam de ações em Minas e críticas diretas ao governo Lula, evidenciando que seu público responde melhor quando ele adota um tom de enfrentamento político.
As menções positivas a Zema nas redes sociais (42,28%) superam as negativas (16,54%), mas o índice de neutralidade ainda é elevado, o que indica baixa polarização e, consequentemente, menor capacidade de mobilizar paixões políticas — ativo essencial em tempos de comunicação afetiva e identitária.
No cenário eleitoral, a projeção é de baixa competitividade em 2026, com chances de vitória estimadas entre 10% e 15%. Zema dependeria de uma profunda desidratação de Bolsonaro e da ausência de Tarcísio para ocupar o espaço da direita. Seu melhor desempenho potencial está em uma composição de chapa com o governador paulista, formando uma aliança SP–MG que representa quase 35% do eleitorado nacional. Nesse arranjo, as projeções indicam uma disputa acirrada com Lula no segundo turno (46% a 42%), caso o apoio bolsonarista se mantenha.
A hipótese de uma chapa Tarcísio–Zema oferece vantagens táticas e simbólicas. Tarcísio mobiliza o eleitorado popular e o bolsonarismo orgânico; Zema agrega credibilidade econômica, serenidade institucional e discurso técnico. No entanto, o risco político é claro: tornar-se um “vice decorativo” e perder protagonismo imediato — ainda que tal posição o projete para 2030 como sucessor natural de uma eventual continuidade liberal-conservadora.
Em síntese, Romeu Zema enfrenta o dilema clássico dos projetos liberais no Brasil: alta capacidade de gestão, baixo apelo de massa. Sua candidatura própria em 2026 tende a reforçar sua marca como líder racional, mas de pouca viabilidade eleitoral imediata. Já uma aliança como vice de Tarcísio pode colocá-lo no tabuleiro nacional com reais chances de vitória, ainda que ao custo de sua autonomia.
O que está em jogo, portanto, não é apenas uma eleição, mas o futuro do liberalismo político no Brasil — entre o cálculo racional e o pragmatismo eleitoral.
Yuri Almeida é estrategista político, professor e especialista em marketing eleitoral
O poder do discurso político
Pierre Bourdieu nos lembra que as palavras não têm força por si mesmas: seu impacto depende do capital simbólico de quem as pronuncia.
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Foto: Arquivo pessoal
O discurso político ocupa um lugar central na vida pública. Não se trata apenas de palavras bonitas ou slogans de campanha, mas de um instrumento de poder capaz de moldar percepções, definir identidades coletivas. Mouffeilizar ações. É pela palavra que lideranças legitimam sua posição, constroem consensos, enfrentam adversários e orientam a imaginação social.
Pierre Bourdieu nos lembra que as palavras não têm força por si mesmas: seu impacto depende do capital simbólico de quem as pronuncia. Um presidente da República, um líder oposicionista ou um outsider sem cargo formal podem dizer a mesma frase e, ainda assim, produzir efeitos distintos. Isso acontece porque cada um ocupa uma posição social e política que confere diferentes níveis de legitimidade. Como também ensinou Max Weber, a autoridade pode ser tradicional, carismática ou racional-legal — e cada tipo imprime uma forma própria de força à fala.
Mas o discurso nunca se sustenta apenas em quem fala: ele se organiza em torno de quem escuta. Desde Aristóteles sabemos que a persuasão envolve a combinação entre ethos (credibilidade), pathos (emoção) e logos (razão). O público, no entanto, não é uma massa homogênea. Nancy Fraser mostrou que a sociedade é formada por públicos e contrapúblicos, em permanente disputa. Isso significa que o discurso político precisa segmentar, ativar valores diversos e falar em registros distintos para diferentes grupos. Uma mesma fala pode gerar entusiasmo em apoiadores, irritação em opositores e indiferença em indecisos.
Outro elemento decisivo é o enquadramento do debate. George Lakoff demonstrou que a política não é apenas uma luta de argumentos, mas de frames, ou molduras cognitivas, que orientam como as pessoas interpretam os fatos. Chamar um imposto de “tarifa de solidariedade” ou de “confisco” muda radicalmente sua percepção. Nesse sentido, Antonio Gramsci destacou que a luta política é também uma luta pela hegemonia cultural: o que importa não é apenas governar, mas conseguir que certas ideias sejam aceitas como senso comum. Chantal Mouffe aprofunda essa reflexão ao mostrar que a política é sempre agonística, isto é, atravessada por conflitos legítimos em torno de significados.
O discurso, contudo, não existe no vácuo: ele se ancora em um contexto simbólico. Murray Edelman mostrou que a política opera por meio de símbolos e simplificações que organizam a experiência pública. Bandeiras, hinos, metáforas de guerra ou de família não são apenas recursos estilísticos: são formas de dar sentido a realidades complexas. Da mesma forma, Benedict Anderson demonstrou que até a própria ideia de nação é uma “comunidade imaginada”, sustentada por narrativas e memórias compartilhadas.
A importância do discurso político, portanto, vai muito além da retórica superficial. Ele é um ato performativo: produz efeitos no mundo. Não apenas descreve a realidade, mas a constitui. Define quem pode falar, quem será ouvido e quais interpretações prevalecerão. Em contextos de crise, protesto ou polarização, a palavra pode acalmar tensões ou incendiá-las; pode abrir espaço para a negociação ou fechar portas para o diálogo.
Em resumo, compreender a política contemporânea exige compreender o poder das palavras. Elas são armas e pontes, instrumentos de disputa e de construção coletiva. Como já indicava Aristóteles, a política é inseparável da retórica — e, no século XXI, continua sendo pela força do discurso que se ganham legitimidades, se moldam imaginários e se definem os rumos de uma comunidade política.
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Tarcísio de Freitas tem o melhor engajamento entre os candidatos da direita
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apresenta taxas de engajamento muito superiores às de seus pares.
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As redes sociais consolidaram-se, no cenário político contemporâneo, como arenas privilegiadas de disputa simbólica e de formação de opinião. O poder comunicativo é elemento estruturante das sociedades em rede, sendo capaz de moldar comportamentos coletivos e influenciar processos políticos. As interações, aparentemente pequenas, em ambientes digitais, podem desencadear ondas de ação coletiva de larga escala.
A partir dessa perspectiva, o desempenho digital dos governadores Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ratinho Jr. oferece elementos para compreender as dinâmicas de força que se articulam em torno da sucessão presidencial de 2026 no campo da direita, após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Estudo do Lab Caos (veja completo aqui) revela uma assimetria significativa entre os candidatos analisados. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apresenta taxas de engajamento muito superiores às de seus pares. Entre os principais indicadores destacam-se:
Taxa de interações quase dez vezes maior em relação aos demais.
Número de comentários cinco vezes superior por publicação.
Base de seguidores mais ampla do que a soma dos outros presidenciáveis do campo da direita.
Esses dados não expressam apenas visibilidade quantitativa. Eles revelam a formação de uma comunidade discursiva, conceito trabalhado por Zizi Papacharissi (2015), em que a audiência não se limita a consumir passivamente o conteúdo, mas participa ativamente da conversação política. O fenômeno reforça o efeito de retroalimentação algorítmica, no qual maior engajamento gera maior alcance, consolidando o protagonismo digital de Tarcísio.
Zema, Caiado e Ratinho Jr.: relevância regional e limites nacionais
Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ratinho Jr., embora mantenham relevância em seus respectivos estados, apresentam desempenhos digitais bem mais restritos. Seus melhores conteúdos alcançam momentos de destaque, mas não configuram uma narrativa consistente em escala nacional. Aqui cabe retomar Pierre Bourdieu (1989), para quem o capital político é sempre relacional e depende da capacidade de conversão em diferentes arenas. O capital regional desses governadores não se traduziu, até o momento, em um capital digital capaz de projetá-los como presidenciáveis de alcance amplo.
Implicações políticas e teóricas
Do ponto de vista político, a disparidade observada sugere uma tendência de centralização em torno de Tarcísio de Freitas como figura capaz de aglutinar setores da direita, sobretudo diante do enfraquecimento jurídico e eleitoral de Jair Bolsonaro. Paolo Gerbaudo (2018) enfatiza que os partidos e movimentos políticos na era digital reorganizam-se a partir da interação constante com suas bases em plataformas online. Nesse sentido, o domínio de Tarcísio nas redes sociais não é apenas reflexo de sua popularidade “offline”, mas constitui um recurso de poder autônomo, capaz de reconfigurar hierarquias no campo político da direita.
A análise evidencia que a disputa presidencial de 2026 não se restringirá às arenas tradicionais da política, como alianças partidárias e tempo de televisão. Como observa Castells (2009), o poder político depende crescentemente da capacidade de controlar fluxos de comunicação em rede. No caso brasileiro, o desempenho digital de Tarcísio de Freitas o posiciona como ator central na reorganização da direita, antecipando uma eleição em que a comunicação digital se configura não como instrumento auxiliar, mas como campo de batalha decisivo.
Yuri Almeida é professor, estrategista político e especialista em marketing eleitoral.























