A emoção na política: o papel das afetividades na disputa por corações e mentes
É preciso reconhecer que as pessoas não decidem apenas com base em fatos, mas também com base em valores, identidades e laços afetivos.21 Ago 2025 / 09h00

Em sua curta passagem, Marília Dias Mendonça, de apenas 26 anos, recebeu a alcunha de “rainha da sofrência”, mas quem sofre agora é um país inteiro por sua precoce partida, pois o que vai doer mesmo
Por: Tiago Rego | Sudoeste Bahia
Foto: Reprodução | Redes Sociais
- Eu me lembro da primeira vez que escutei Marília Mendonça. E, claro, o local não podia ser outro senão o boteco. De imediato, eu fui arrebatado por aquela forte e muito potente voz feminina. Assim como milhões de brasileiros, conheci a cantora sertaneja pelo mega hit “Infiel”, que bombou nas rádios e nos serviços de streaming no já longínquo ano de 2016. Até então, para mim, seria mais uma cantora dessas que aparecem em uma estação, mas somem na outra estação seguinte. Todavia, a cada música que a menina nascida na pequena cidade de Cristianópolis, no estado de Goiás, emplacava, percebia-se que Marília Mendonça tinha uma peculiaridade que a diferenciava de seus pares do chamado sertanejo universitário — a autenticidade. — É claro que a estética era a mesma de sempre — o coração partido, as traições amorosas e as consequentes dores de cotovelo —, mas, nas músicas de Mendonça, a mulher deixava de ser a agente passiva da narrativa para assumir o papel de protagonista. Nas canções, as alegorias contemporâneas estão presentes — as mensagens trocadas com os crushes pelas redes sociais, os relacionamentos líquidos, a bebida com forma de escapismo —, mas imerso a este interlúdio de obviedades, lá estava Marília ao dizer: “Se ele não te quer, supera. De mulher para mulher, supera.” Era um toque, o toque de uma compositora que fazia questão de se aproximar de seu interlocutor, o toque que uma amiga dava para outra para superar o boy. Outro paradigma quebrado por Marília diz respeito à estética física. A voz de “Troca de Calçada” não se curvou a nenhum expediente gordofóbico, nem se rendeu ao corpo fit que é tão cultuado no Brasil. E é claro que tal atitude pode ser enxergada como um ato de resistência. A resistência de uma mulher comum em um universo majoritariamente masculino, e que ainda é permeado por machismos e objetificação do corpo feminino. Por tudo isso, em sua curta passagem, Marília Dias Mendonça, de apenas 26 anos, recebeu a alcunha de “rainha da sofrência” por cantar as dores de sua geração, mas quem sofre agora é um país inteiro por sua precoce partida, pois o que vai doer mesmo é “não escutar o seu bye bye”.
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