Câmara de Caetité divulga pauta da sessão ordinária de segunda-feira (25)
Reunião terá apresentação de projetos, pareceres e indicações22 Mai 2026 / 21h30

Feliz Natal
Naquela época o Natal era diferente. Não havia muitas opções de presentes em Caetité, ainda muito pequenina (mas sempre ilustre!). Também não havia essa obrigatoriedade de todos serem presenteados. O aniversário de Jesus era mais dele que nosso. O consumismo era menor.
Mas havia o clima de fraternidade e amor. E havia o costume dos presépios e das visitas aos mesmos. Gostávamos dessa peregrinação. Tomávamos banho à tarde quando o sol começava a declinar e vestíamos uma roupa domingueira. E, em grupinhos, saiamos a visitar e admirar todos eles, de casa em casa. Eram lindos! Havia de todos os tipos e tamanho. Engraçado... Fecho os olhos e enxergo alguns bem nitidamente. Criativos e lindos. Na gruta a Sagrada Família, os Reis Magos, os pastores, os animais... A imagem do Menino Jesus só era colocada depois da meia noite de 24 para 25 de dezembro.
O mais lindo era o da Catedral, pois as imagens eram grandes. Grande também era o da minha irmã Lourdes (a saudosa madrinha Lourdes), que morava em Ibiassucê.
Em minha casa ele era armado pelas minhas irmãs. Colocavam uma mesa num canto da sala, galhos na parte de trás forrados de papel de embrulho tingido com “roxeterra” (uma espécie de tinta barata em pó, solúvel em água, também conhecida como “Xadrez”, usada para colorir o cimento do piso). Formavam no meio da base uma espécie de gruta onde colocavam a Manjedoura. À frente da mesma, espalhavam areia e muitos bichinhos de barro pintados (muitos desses bibelôs eram feitos pelo povo da roça que também fazia moringas, potes, talhas etc e eram vendidos na feira). Eram simplesmente lindos!
As árvores de natal feitas com galhos secos forrados de algodão, a guisa de neve. Bolinhas de aljofre coloridas (eram tão frágeis e os cacos tão afiados!). Meus Deus, como aquilo tudo era encantador! Parecia mágica. Um sonho! Depois começaram a chegar ao comercio local as árvores artificiais. Eram verdes, ou brancas, ou prateadas. Imitação de pinheiros. Sobre os galhos, se colocava camadas de algodão para imitar o natal nórdico...
Como disse, não eram obrigatórios os presentes para todos, mas para as crianças sim. Elas colocavam seus sapatos no quarto dos pais e de outros prováveis “Noeis”. E pela manhã iam correndo ver o que o Bom Velhinho lhes deixou! Costumava por os meus atrás da porta...
De todos os Natais da minha infância, os que mais me marcaram foram os que me trouxeram três presentes: Em um ganhei do meu amigo Euclides, funcionário da Bela Vista, um pianinho com oito teclas. Num outro, meu cunhado Pame chegou de Brasília, onde trabalhava na sua construção, e me trouxe uma mobília de Sala de Jantar de bonecas, em plástico, imitação perfeita de fórmica (que estava na moda então). E num outro meu também cunhado “Padim João” trouxe-me de São Paulo uma caixa com cinco quilos de Chocolates Garoto, recém-lançados. Que farra! O sonho de qualquer criança e adulto chocólatra! Acho que tive bombons por um bom tempo...
Lembro-me também que, às vésperas do grande dia, a família reunia-se em mutirão para fazer pacotinhos com balas, chocolates, chicletes e pirulitos Zorro, que eram distribuídos às crianças carentes. Adorava essa parte.
Ainda persiste em nossos dias a tradição da Missa do Galo, ou seja, a cerimônia católica celebrada à meia noite. E ela era o ponto máximo da nossa Caetité na noite do Natal. As famílias se vestiam de festa e, unidas, assistiam ao rito na Catedral de Santana. Eu ficava em casa, pois tinha medo de que Papai Noel, não me vendo dormindo, desistisse do meu presente. A Missa do Galo teve origem numa lenda que conta que, na meia noite de 24 para 25 de dezembro, quando Jesus nasceu, o galo cantou com toda a sua garra e força, acordando todos, para anunciar a chegada do Menino Jesus! Outra lenda nos conta que a referida missa acaba tão tarde que, quando os fiéis voltam para casa, o galo já está cantando.
Mas o fato é que hoje é véspera do nascimento de Cristo. Nossas emoções estão mais claras, à flor da pele. Toma-nos um sentimento de fraternidade e paz. Queremos abraçar, enviar mensagens de carinho, desejar tudo de bom a todos, colocar para fora o que há de melhor em nosso coração. Trocamos presentes e palavras doces. Queremos mostrar amor! Queremos sorrir junto à família! E raspamos nossas economias para comprar presentes e fazer uma ceia mais farta... Mas nos esquecemos de que lá fora há muita fome e miséria embaixo das sacadas, dos viadutos, nas favelas... Nos guetos e becos escuros. Esquecemos o desígnio de amor do Cristo, que nos ensinou que somos todos filhos do mesmo Pai e que devemos nos ajudar uns aos outros. Há muitos corações fechados à luz e repletos de egoísmo. Há uma divisão injusta de bens e posses. Há relações quebradas pelo desamor, pelo ódio, pelos preconceitos. Há gargalhadas que blasfemam, há dores e mágoas. Há desespero e tristeza. Nasci comunista e tornei-me socialista. Não curto o Natal dos homens. Não curto as lojas empanturradas de consumistas.
Do Natal em si nunca gostei. Sempre achei festa de rico. O grande marco das discrepâncias sociais. Nunca gostei de ver pessoas sofrendo nem das diferenças gritantes entre a elite e a plebe. E ainda hoje prefiro enxergar as festas de final de ano apenas como época dos feriadões, enfeites coloridos e iluminados, momento de enviar mensagens fraternais e como desculpa para me empanturrar de chocolates.
Mas curto o amor que é celebrado em corações que estão abertos para tal. Curto o nascimento dAquele que nos ensinou que somos todos filhos do mesmo PAI. Que devemos andar lado a lado e seguir pela estrada que conduz à caridade, à fraternidade, a Deus!
Deixo-lhes meu abraço. Um gesto de paz, de amizade, de carinho. E um desejo: Que consigamos mudar em nós mesmos os sentimentos e as atitudes neste Natal. Que o vejamos como aniversário do Cristo. Que lhe rendamos homenagens através da caridade e acolhimento. Que saibamos dividir nosso pão com os mais necessitados. Que saibamos amar!
E, se lhe sobrar comida da ceia ou algum presente, dê a quem não tem! Nossa vida é uma passagem e não tem seguro, não tem garantia. Ninguém sabe do dia de amanhã, quando podemos ser nós os necessitados. E tenhamos a certeza de que só poderemos nos aproximar do céu se soubermos olhar para baixo.
Feliz Natal!
Luzmar Oliveira – [email protected] – WhatsApp: (71) 99503115 – (71) 87247161
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