Carreta Bom Te Ver chega a Caetité com consultas e exames oftalmológicos gratuitos
Atendimentos vão de 15 a 30 de junho e incluem avaliação completa da visão; moradores devem buscar encaminhamento nas unidades de saúde12 Jun 2026 / 11h00

Foto: Reprodução
Geração anos sessenta
Sentados no banco da praça, olhávamos as pessoas passeando, num sobe e desce incansável. Mocinhas e rapazinhos bem vestidos se paqueravam, entre sorrisos e troca de olhares. Em outros bancos, alguns casais de namorados se beijavam. Grupinhos de moças cochichavam e sorriam. E grupinhos de rapazes, parados estrategicamente nas laterais do passeio, diziam coisas interessantes e bem humoradas, com a intenção de "mexer" com as garotas.
“A mais bonita é a de sapato vermelho!” Todas olhavam imediatamente para os pés... e nenhuma estava com o calçado daquela cor. Mas tudo terminava em sorrisos. Gostoso mesmo era quando o mocinho se aproximava e dizia que queria falar com a mocinha. E timidamente a pedia em namoro. Após o “sim”, vinha a fase das “mãos dadas”; depois, com o passar o tempo, começavam os abraços, os beijos... e quase sempre parava por ai. Era uma época de pureza e simplicidade. O sexo ficava para mais tarde. Ou até depois do casamento. Não havia essa facilidade de remédios, camisinhas... Mas também não havia essa proliferação de doenças sexualmente transmissíveis. Na verdade, o que mais impedia a liberação sexual era a família. Ela se impunha decididamente.
Longe de mim condenar a liberdade sexual dos dias atuais. Muito pelo contrário. Sou a favor da quebra desse tabu que tanto escravizou a minha geração. Mas sou a favor do sexo com responsabilidade. E sou contra a promiscuidade. Apenas isso.
Os namoros também nasciam nas festas do clubinho da Praça. E, mais tarde, nas do Baraúna Tênis Clube. Ah! Claro! E nas festinhas em casa. Alguns de nós fazíamos um bailinho à base dos toca-discos ou radiola. E com uma garrafa ou duas de batida de limão. Os casais dançavam de rostos colados e coração acelerado. Era namoro à vista!
E nos corredores do IEAT? As garotas usavam saia azul marinho plissada e camisa branca. Os garotos, calça e camisa de brim caqui. Intervalo das aulas... e meninas, de braços dados, iam e voltavam tagarelando entre si e olhando os rapazinhos que, em pequenos grupos, parados, admiravam as belas pernas (do joelho pra baixo) e diziam “gracinhas”. Às vezes se aproximavam e batiam papo ali mesmo.
Tempo bom, em que Professor Hélio Negreiros, vice-diretor do colégio, nos chamava de “Maria”, por conta do lenço na cabeça (era moda!). Dona Elzinha, também vice, puxava nossas saias que enrolávamos no cós, prendendo com um cinto largo de couro, para encurtar as mesmas, pois a minissaia era sucesso! Ela puxava, desfazia tudo... e corríamos para o sanitário para fazer tudo de novo! (Risos).
O sanitário cheirava a cigarro, pois fumar, então, era “chique”! E algumas mocinhas o faziam escondido naquele ambiente. E um só cigarro, Hollywood ou Continental, ambos sem filtro, passava de boca em boca. Depois veio o Minister, com filtro e mais caro. Carteira branca, letras azuis, uma coroa dourada e um grande M sobre o nome, o qual era lido em forma de acróstico: “Minha Inesquecível Noiva Isto Será Tua Eterna Recordação. Mora Coroa?” A palavra “mora”, vinda de “morou”, era uma gíria da época, muito usada por Roberto Carlos: “É uma brasa, mora!?”
Essa era a juventude dos anos sessenta em Caetité, ou em qualquer outra cidade do interior. Flertes puros e sem malícia. Namoro de banco de jardim ou de portão. O sexo ainda era um tabu. E os pais, vigias inexoráveis das suas donzelas. Tínhamos hora para sair e voltar para casa. Tínhamos respeito pelos nossos genitores, e também pelos irmãos mais velhos. Aliás, por todos os mais velhos, inclusive, pelos professores.
Mas a vida não era só isso. Mesmo sabendo que “as canções usavam formas simples pra falar de amor”, havia um outro lado. Foi quando em 1964, num 1º de abril (que a história, por motivos óbvios, registou como 31 de março), as mãos sujas e sanguinárias do Tio Sam patrocinaram um golpe no Brasil. E implantou a ditadura militar. E quem mais sofreu com ela foi a minha geração. Mesmo em Caetité, cidadezinha perdida nas brenhas do sertão baiano, ela fez-se ouvir. Quem não se lembra dos norte americanos e dos alemães explorando nosso minério? Quem não se lembra de uma campanha sórdida chamada “Doe ouro para o bem do Brasil”? E de um programa colonizador dos EUA, feito para encobrir a espionagem, de nome “Aliança para o progresso”?
E no Brasil inteiro os jovens revolucionários, aqueles que não aceitavam a ditadura sanguinária que matou e exilou milhões de brasileiros, foram torturados e mortos sem dó sem piedade. O patrocinador de tudo isso foram os Estados Unidos. O mesmo que, para dar motivos para seus jovens envergarem a farda do seu exercito e matar os vietcongs, não hesitou em lhes ensinar a usar drogas, pois só assim, dopados, sentiam o ímpeto da violência e podiam matar, explorar, estuprar... e foi disseminado o uso do LSD e similares. Começou a grande mácula da sociedade: As drogas!
E a mesma geração que fez belas canções, que descobriu a liberdade do amor, fez guerras e foi explorada pelos poderosos imperialistas. Uma geração que aprendeu a amar, amando! Aprendeu a sofrer, sofrendo. E que conquistou seu lugar no mundo com muita luta e coragem.
E Vandré compôs, cantou, foi preso e torturado:
“Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão”
Luzmar Oliveira - [email protected] – Whatsapp: 71 991031847
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