
Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam, em conversas reservadas, que a percepção dos eleitores sobre preços, endividamento e poder de compra representa um risco maior para a campanha de reeleição do que as acusações contra seu filho Fábio Luís, o Lulinha, por suposta atuação em um esquema de lobby para venda de medicamentos ao Ministério da Saúde. Ele nega irregularidades. Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do petista, intensificaram nas últimas semanas a disputa pelo discurso sobre a economia. O cenário ganhou força com a crise do Grupo Casas Bahia e a repercussão dos preços dos alimentos. O governo destaca indicadores como o baixo desemprego e a inflação controlada, mas enfrenta dificuldades para transformar esses resultados em percepção positiva entre os eleitores. Os juros, atualmente em 14% ao ano, pressionam o endividamento de famílias e empresas, enquanto a alta da dívida pública também é explorada pela oposição. Flávio tem apostado justamente nesse desgaste. Em discursos e vídeos nas redes sociais, o senador critica o preço dos alimentos, o endividamento e os efeitos dos juros altos. A campanha passou a usar a crise das Casas Bahia como exemplo para sustentar que empresas que atravessaram a pandemia agora enfrentam dificuldades. A disputa também chegou aos supermercados. Flávio e aliados têm publicado vídeos mostrando preços de produtos como carne e café. A campanha de Lula, por sua vez, responde com imagens de estabelecimentos e argumentos sobre a variação dos preços. Petistas avaliam ainda pedir à Justiça Eleitoral uma investigação sobre perfis que estariam disseminando conteúdos semelhantes aos discursos de Flávio, sob suspeita de uma possível rede organizada de desinformação. Apesar da repercussão das acusações contra Lulinha, políticos dos dois grupos ouvidos pela reportagem avaliam que o caso, com as informações disponíveis até o momento, tende a ter menos impacto sobre o eleitorado do que a situação econômica. Para aliados de Lula, o desafio é fazer com que indicadores positivos, como desemprego próximo de 5,4% e aumento da renda, sejam percebidos no cotidiano da população. A disputa ocorre em um cenário eleitoral apertado. Segundo a última pesquisa Datafolha, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro. Em uma eventual disputa de segundo turno, o petista tem 47%, ante 43% do adversário, resultado considerado empate técnico dentro da margem de erro.