Sudoeste Bahia
Publicado em: 23 Ago 2018 / 08h50
Autor: Willian Silva

Caetité: terreiro de candomblé abre suas portas para o Sudoeste Bahia

Foto: Willian Silva | Sudoeste Bahia

Certa vez, Chico Xavier, escritor renomado do espiritismo disse, “o ódio é senão o próprio amor que adoeceu gravemente”. E é pelo ódio que alguns grupos têm se colocado contra o candomblé, uma das religiões mais antigas do mundo, que remonta há quase 10 mil anos, segundo estudiosos das religiões de matriz africana. Segundo a publicação A Presença do Axé — Mapeando Terreiros no Rio de Janeiro, organizado pela historiadora Denisi Pini Fonseca e pela antropóloga Sonia Giacomini, dos 840 terreiros visitados, 430 já sofreram agressões e que esse cenário vem se agravando nos últimos vinte anos. E o Ilê Axé Dana Dana – que em outros tempos tinha o nome de Centro Espírita Rita Irlanda de Carvalho Teixeira – não é uma exceção, mesmo em se tratando de uma cidade pequena e ilustre como Caetité – também passou por momentos de incertezas e medos, mas que hoje vive em paz e tranquilidade. Pela primeira vez uma equipe de reportagem da região entra num terreiro de Candomblé. A reportagem do Sudoeste Bahia foi bem recepcionada pela professora Taynah Rochael que é uma das líderes do Ilê Axé Dana Dana que abriu as portas do terreiro para falar sobre as dificuldades e também das alegrias que acontecem dentro da religião instalada em Caetité há mais de 50 anos. “No início, os trabalhos eram feitos de casa em casa, porque não tinham local específico. Onde estamos hoje, sempre foi Umbanda, sempre se tocou os tambores, sempre teve os caboclos, sempre teve a louvação. No início da década de 70, a prefeitura doou este prédio, que era a usina de energia elétrica de Caetité, e na mesma época oficializou a doação do local para que se tornasse um centro religioso.” 

Foto: Willian Silva | Sudoeste Bahia

Na época, segundo a professora, a denominação “terreiro de umbanda” não poderia ser utilizada devido a lei vigentes do Código Penal (de 1941) ainda constarem como atividade ilícita. Hoje, o candomblé ou umbanda pode ser praticado livremente e com culto garantido pela Constituição de 1988. “Hoje já é difícil você garantir o culto das religiões de matriz africana, imagine naquela época com as leis vigentes? Apesar disso, eu nasci e me criei ouvindo os tambores que aqui tocam. Por isso que durante anos se manteve o nome Centro Espírita Rita Irlanda de Carvalho Teixeira” explica a ekédi. O nome do terreiro foi uma homenagem a uma das fundadoras do local. No Ilê, não são feitos só os cultos aos orixás. Lá também é palco de atividades sociais. “Nós também realizamos projetos sociais e culturais. Em 2015 fizemos a primeira Conferência sobre patrimônio e cultura afro-brasileira em Caetité; Desde 2011 temos uma parceria com a Universidade do Estado da Bahia (Uneb), onde participamos todos os anos do projeto Leituras de África onde fazemos também parte do coletivo que leva o mesmo nome. A última edição deste projeto foi realizada em sua totalidade aqui no terreiro. Outra parceria importante á com a Fundação Pedro Calmon, onde desta já recebemos mais de 500 livros, onde a nossa pretensão é fundar aqui no terreiro uma biblioteca comunitária. Estamos tentando criar um espaço aqui para que toda a comunidade possa utilizar essa biblioteca, que terá uma temática voltada para a cultura afro. Uma preocupação nossa é com os jovens que estão no mundo das drogas e da ociosidade e nossa intenção é retirar esses jovens desse mundo e poder ajuda-los através da cultura. Aqui realizamos oficinas de atabaque, canto em iorubá e samba de roda e em breve estaremos implantando a oficina de dança afro para estes jovens que estão em situação de vulnerabilidade social.”

Foto: Willian Silva | Sudoeste Bahia

Com toda essa efervescência religiosa e cultural que há no Ilê Axé Dana Dana, Rochael nos contou um pouco das tristezas que os integrantes da religião passaram nos últimos tempos. “Fomos perseguidos duramente por alguém que não nos queria por aqui. Vemos que o terreiro está no centro da cidade há mais de 50 anos e não entendemos o porquê desta perseguição. Só para você ter ideia, o nosso telhado está uma ‘peneira’ devido a inúmeras pedras jogadas por esta pessoa. Felizmente, ninguém nunca se feriu pois esta casa tem santo. Em outra ocasião ele jogou uma bomba e desta vez ele feriu um filho de santo. Já fomos acionados no Ministério Público, Justiça local, Delegacia de Polícia e em todos estes conseguimos vencer. Por conta das denúncias tivemos que reduzir as nossas festas e os horários dos toques dos atabaques. Essa pessoa denunciou dizendo que tínhamos amplificadores e caixas de som. Nunca precisamos pois o espaço é pequeno e não há necessidade. Se tivéssemos já tínhamos vendido e utilizado o dinheiro na própria casa (risos). Mas, graças a Deus, tudo isso passou. Estamos vivendo tempos de paz.” A professora finalizou dizendo querer respeito. “Apenas queremos respeito. Nós não convidamos ninguém. Vem quem quer, pois as portas estão abertas e sempre estarão abertas à todos, independentemente de sua religião. E aqui todos são respeitados, independente da sua posição social. Aqui recebemos e respeitamos bem, desde um juiz até um pobre. Aqui todos estão juntos e sentam-se de igual forma e são todos iguais” finalizou a professora.