
O caso que chocou o distrito de Nagé, em Maragogipe, voltou ao debate público com a proximidade do julgamento de Elisângela Almeida de Oliveira, apontada pela polícia como responsável pela morte da marisqueira Adriane Ribeiro Santos, 23 anos, e das filhas Gleysse Kelly, 5, e Ruteh, 2. As três morreram em um intervalo de três semanas, entre julho e agosto de 2018, sempre com sintomas semelhantes. O que parecia uma tragédia familiar se transformou em uma investigação que revelou envenenamento com chumbinho e uma motivação perturbadora: obsessão amorosa. As mortes ocorreram sempre às segundas‑feiras. Primeiro, Gleysse passou mal e morreu horas depois. Uma semana depois, foi a vez de Ruteh. Na terceira semana, Adriane apresentou os mesmos sintomas — salivação intensa, suor excessivo e mal‑estar súbito — e também não resistiu. Até o cachorro da família havia morrido dias antes. A repetição dos quadros levantou suspeitas entre médicos e policiais. A investigação ganhou força quando familiares informaram que nenhuma das vítimas era diabética, apesar de medicamentos para a doença terem sido encontrados na casa. A polícia passou a considerar envenenamento e pediu exumações para novos exames. Os laudos toxicológicos confirmaram a presença de Terbufós, inseticida extremamente tóxico usado em produtos conhecidos como chumbinho. Durante as oitivas, o nome de Elisângela — conhecida na comunidade como “irmã da igreja” — passou a aparecer com frequência. Ela e o marido haviam se aproximado da família por meio da igreja e, segundo testemunhas, mantinham convivência intensa com Adriane e o marido, o pescador Jefferson Brandão. Depoimentos apontaram que alimentos entregues por Elisângela foram consumidos pelas vítimas antes de cada episódio. Um relato decisivo indicou que Adriane tomou um copo de chocolate oferecido pela suspeita horas antes de morrer. O inquérito concluiu que Elisângela teria desenvolvido uma relação possessiva por Jefferson. Ele relatou que a suspeita pagou despesas do seu casamento, insistia em tratá‑lo como filho e pedia para ser chamada de mãe. Para a polícia, ela queria ocupar o lugar de Adriane e afastar a família do pescador. Com base nos laudos e depoimentos, o Ministério Público denunciou Elisângela por três homicídios qualificados, com uso de veneno, motivo torpe e impossibilidade de defesa das vítimas. Ela foi pronunciada para julgamento pelo Tribunal do Júri, mas o processo enfrentou sucessivos adiamentos por alegações de problemas de saúde da ré. O júri está marcado para 7 de outubro de 2026. Quase oito anos após as mortes que abalaram o Recôncavo, familiares e moradores de Nagé aguardam o desfecho de um dos casos mais marcantes e perturbadores da história policial da Bahia.